sexta-feira, 23 de abril de 2010

Pixinguinha: uma estrela ascendente

Pixinguinha: uma estrela ascendente



Meu coração, não sei por que/Bate feliz, quando te vê/ E os meus olhos ficam sorrindo e pelas ruas vão te seguindo / Mas mesmo assim, foges de mim.

Pixinguinha, ao lado do parceiro João de Barro, desentranhara estes versos, fragmentos iniciais da canção Carinhoso (1916-1917). E prosseguira:

Ah! Se tu soubesses / Como sou tão carinhoso / E muito e muito que te quero / E como é sincero o meu amor / Eu sei que tu não fugirias mais de mim / Vem, vem, vem, vem(...)

Inspiração, coração acelerado e desacelerado, máquina de inventar poesias, quisera ir mais adiante:

Vem sentir o calor / Dos lábios meus / À procura dos teus / Vem matar esta paixão / Que me devora o coração / E só assim então / Serei feliz, bem feliz.


Alfredo da Rocha Vianna Filho, o Pixinguinha, nasceu no dia 23 de abril de 1897, no Rio de Janeiro. Era compositor, flautista, saxofonista e arranjador. Sua canção Carinhoso até os dias de hoje vagueia bela por bares, redutos de sambas e chorinhos, e vai contagiando casal de senhores e par de moçoilos enamorados. Diz-se que, após ter sido vítima de varíola, recebeu o apelido de Bexiguinha, depois Pechinguinha. E, finalmente, Pixinguinha. Compôs também Rosa (1917), outra de suas crias que, a exemplo de Carinhoso, faz rotineira pousada em lugarejos de boemias no Brasil e fora das terras tupiniquins, enchendo de amor os jardins de nossas vidas.

Dias atrás, meu sobrinho e afilhado de 15 anos de idade – que ostenta uma delicada tatuagem nas costas, fá de carteirinha do Clube Regatas Flamengo Esporte Clube (sou vascaíno!), apreciador do samba contemporâneo da banda Exaltasamba, pessoa de tenra idade do século XXI – cantarolava ele assim com aquela voz encorpada de garoto de espinhas no rosto:

Tu és, divina e graciosa
Estátua majestosa do amor
Por Deus esculturada
E formada com ardor
Da alma da mais linda flor
De mais ativo olor
Que na vida é preferida pelo beija-flor

Fiquei sobressaltado. O danado recitava música de Pixinguinha. Precisamente Rosa. Sorridente, falei a ele que aquela melodia que saía de sua boca era coisa nascida de muitos anos atrás e que ele estava dando nova vida a seu autor, o Pixinguinha. Ele retribuiu-me o sorriso e adentrara a sua casa a cantarolar outras coisinhas de samba moderno. Decerto, tinha ouvido a canção Rosa em algum lugar desses cantinhos de Brasília onde ainda se pode ouvir poesia cantada de primeira qualidade.

Pois bem. Em 1911, Pixinguinha juntou-se à orquestra do rancho carnavalesco Filhas da Jardineira ou simplesmente As Jardineiras, onde conheceu os seus amigos sambistas Donga e João da Baiana. Foi chamado numa época de Carne Assada, pois uma vez apropriou-se de um pedaço de carne assada antes do almoço que seria servido pela família aos convidados.

Frequentava as rodas de choro na famosa casa da sambista e baiana Tia Ciata, que ajudou a levar o samba da Bahia para o Rio de Janeiro. Na casa da Tia Ciata, o choro acontecia na sala, e o samba, no quintal. Lá é que nasceu o famoso Pelo telefone (O chefe da polícia pelo telefone manda me avisar/que na Carioca tem um a roleta para se jogar...), de Donga e Mauro de Almeida, considerado o primeiro samba gravado de que se tem conhecimento.

O precoce artista “matava” aula para tocar na casa de chope A Concha, na Lapa Boêmia, no que seria o seu primeiro emprego. “Às vezes, ia lá com a farda do Colégio São Bento”, revelou Pixinguinha em seu depoimento ao Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro.

No ano de 1955, Pixinguinha gravara seu primeiro long-play (LP) intitulado Velha Guarda e, em novembro de 1957, foi um dos convidados pelo presidente Juscelino Kubitschek a almoçar com o trompetista Louis Armstrong no Palácio do Catete. Em 1958, sofreu um mal súbito.

Em 1971, sua esposa, Dona Beti, foi internada num hospital. Dias depois, Pixinguinha sofrera mais uma complicação cardíaca e foi também internado no mesmo hospital da sua esposa. Para que ela não soubesse que ele também estava doente, o sambista colocava um terno nos dias de visita e ia visitá-la como se estivesse vindo de casa. Dona Beti morreu no dia 7 de junho de 1972, aos 74 anos de idade.

Mais outra: certa vez, numa madrugada, quando Pixinguinha regressava de uma apresentação, ele foi surpreendido por assaltantes. Os bandidos reconheceram o músico e devolveram seu dinheiro e flauta. Pediram desculpas ao sambista e ainda resolveram escoltá-lo até sua casa, mas no meio do caminho avistaram um botequim. Aí o que deveria acabar em assalto acabou foi em samba.

Esses episódios fizeram com que Vinícius de Morais dissesse que, se não tivesse nascido Vinícius, queria ter nascido Pixinguinha.

Lamento. Ao lado de Carinhoso e Rosa, a música-choro Lamento (1928) de Pixinguinha também é saboreada costumeiramente em casas de choros, chorinhos e sambas de raiz em Brasília (Clube do Choro, Calaf, Garota Carioca), no Rio de Janeiro (Carioca da Gema e em toda a Lapa) e por todo o Brasil, desde as grandes cidades até as cidades interioranas.

No dia 17 de fevereiro de 1973, o nosso Pixinguinha falecera. Diz que fora erguido aos céus por alguém para ficar ao lado de outras estrelas. Pixinguinha-estrela, mas nunca cadente. Ao contrário, estrela ascendente que sobe e brilha mais intensa a cada vez que ouvimos e cantamos Carinhoso, Rosa, Lamento, dentre tantas outras, renascidas nas cordas de um cavaquinho ou violão. De uma flauta, de um trompete, de um saxofone. Rosa que desabrocha ainda, clássica, na voz de um certo menino de 15 anos de idade.

Num desses sábados, fui até a banca de jornais próxima de minha casa e lá estava Pixinguinha, vivo, iluminado, a descansar numa prateleira de CDs e livros de bolsos. Sua foto estampada em preto branco de um lado da capa e, de outro lado, um rol de títulos de músicas suas.

Comemoramos o Dia Nacional do Choro na data de 23 de abril, que é oficialmente uma homenagem ao nascimento de Pixinguinha. Junta-se a essa celebração a concessão, por decreto municipal, da Rua Pixinguinha onde o compositor carioca residia.

E o nosso coração, Pixinguinha, há muito já sabe por que bate mais feliz quando te vê!

terça-feira, 20 de abril de 2010

A dor de Fernando Pessoa

A dor de Fernando Pessoa

"O estudo a meu respeito, que peca só por se basear, como verdadeiros, em dados que são falsos por eu, artisticamente, não saber senão mentir".

(Fernando Pessoa)



Sabe-se lá que se deixou passar na mente sã ou doentia de Fernando Pessoa quando seus neurônios, num instante demasiadamente divino, resolveram jorrar estes versos:

O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

Numa página de livro, em Interpretação do texto, os olhos de um estudante leem e releem a questão-desafio:

O que é a dor para o autor do texto (Fernando Pessoa)?

O aluno coça a cabeça, olha para um lado e outro. Talvez à procura de outra pessoa, o Fernando Pessoa, a quem não titubearia em lhe pedir ajuda: “Ei, poeta, o que você quis dizer com estes versos?”

Este aluno, meus caros, sou eu, 25 anos atrás, autor desta modesta coluna, ocupante da cadeira número sabe lá das quantas da então sala de porta com a etiqueta branca: “5ª Séria-B”. Era como se ouvisse o murmurar de algum guru a me convidar para o mundo das interpretações de texto.

Eu respondi à querida docente que a dor para Pessoa poderia ser a própria dor.

Ela me alertou que minha resposta estava errada e me afirmou que a única resposta achava-se clara, explícita no texto, a saber: “A dor que deveras sente”. Eu a contra-argumentei, com toda a minha respeitosa entonação de voz, que a minha resposta poderia estar errada ou certa do ponto de vista do autor dos versos. Que, portanto, para ter a resposta exata, teríamos de levar a pergunta a Fernando Pessoa. E lhe falei ainda (aí fui audacioso) que era como se ela, minha estimada professora, quisesse adivinhar o que eu estava pensando naquele momento. Que, então, só poderíamos apresentar hipóteses de respostas para aquela pergunta de interpretação textual. Eu a convenci e ganhei o ponto. E nem foi preciso consultar Pessoa.

Por pura teoria, o exercício de interpretar um texto, seja em forma de poesia (versos de Pessoa), de prosa (um romance de Machado de Assis), seja uma mera frase, significa esmiuçá-lo, dissecá-lo, penetrar em suas entranhas, ou seja, perceber sua temporalidade (época em que foi escrito), até mesmo a biografia de seu autor para vincular seus comportamentos, suas idéias e ideais ao conteúdo do texto. Significa, num segundo plano, identificar os seus elementos articulatórios e coesivos cuja fusão irá conferir compreensão do texto. À frente da poesia, é necessário que percebamos o seu jogo metafórico exposto pelo autor e participemos deste jogo onde cada palavra, cada junção de palavras, cada encadeamento de frases, dos versos, das estrofes, nos dará suporte para interpretar e compreender as nuances do texto.

Numa perspectiva filosófica, interpretar poesia pessoana é tentar interpretar Fernando Pessoa. Sim, limitar-se a tentar, vez que este poeta convivia com seus heterônimos Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Alberto Caeiro, três criações de sua própria mente que o fizeram homem de alta complexidade. Quem era quem? Personagens teatrais apenas? Quem deles era autor ou coautor de determinada poesia de Fernando Pessoa?

Se “O poeta é um fingidor”, podemos interpretar e inferir que Pessoa foi um fingidor, de sorte que fingia ora ser Ricardo, ora ser Álvaro, ora ser Alberto. E fingia tão completamente que chegava a fingir que era dor a dor que deveras sentia, a ponto de nos confessar que "A origem mental dos meus heterônimos está na minha tendência orgânica para a despersonalização e para a simulação" e, ainda, "Eu sou a sensação minha. Portanto, nem da minha própria existência estou certo".

No momento em que inicia seu árduo trabalho de imbricar as palavras, os versos e as rimas, o poeta não tem a intenção de entregar uma poesia com a finalidade - ainda que secundária - de levar ao leitor um trabalho exclusivamente de interpretação textual da sua obra. O poeta concebe a poesia porque sente necessidade de fazê-la, como a carregar no coração e na alma um turbilhão de sentimentos e ansiedades e jorrar tudo para fora mediante manifestação poética.

Interpretar obra pessoana é querer caminhar e se aventurar numa estrada interminável, onde, em dada ocasião, o viajante-interpretador inevitavelmente haverá de se permitir em se delirar para que possa interpretar pensamentos de Pessoa que, sobre estes, denunciara: “Introduzem-se em mim: não são pensamentos meus, mas pensamentos que passam através de mim. Não pondero, sonho; não me sinto inspirado, deliro".

À volta de que acabo por relatar, é prudente concluirmos que interpretar qualquer cousa escrita de Fernando Pessoa implica hipotetizar, deduzir o significado de sua obra.

Afortunados os que, naqueles tempos, puderam cruzar o caminho de Pessoa, ter-lhe apertado a mão, ter-lhe oferecido um sorriso, e dele arrancar respostas, ainda que “simuladas”, para as nossas questiúnculas de hoje.

Por derradeiro, inspirado pela proposta apresentada pelo nosso colega colunista Maurício Zampaulo em sua texto “Arte é conhecimento”, aos amigos leitores, interpretadores textuais por natureza, lanço-lhes este desafio:

O que foi a dor para o autor do texto (Fernando Pessoa)?

Conto com a importante participação de sua “pessoa”, enviando a sua resposta e seus comentários por e-mail.

Obrigado pela atenção, certo de que nos veremos brevemente.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Gramática: reformá-la é preciso.

                                 
                               “(...) o gramático treinado sabe se uma palavra dada é um adjetivo ou um verbo não por se referir a tais definições, mas praticamente da mesma maneira pela qual todos nós ao vermos um animal sabemos se é uma vaca ou um gato”. (Jespersen, 1924, p. 62)



                     Ai da alma pensante que pronunciar em público, em voz alta, a seguinte frase: A gente vamos alcançar estes objetivos. Será ela motivo de risinhos, piadinhas e de olhares tesos das pessoas que a ouvem. Todavia, estas pessoas não se dão por conta de que tal frase, embora confronte duramente com a Gramática Tradicional (a normativa ou prescritiva), alcança também a coerência, objetividade e correção gramatical do ponto de vista da Variação Linguística. Nessa perspectiva, o sujeito “A gente” encerra a idéia clara de coletividade, e portanto, podemos traduzi-la espontânea e naturalmente para “Nós”, ou seja, subjaz a informação de que há mais de uma pessoa, ao menos duas, que alcançarão estes objetivos.

                     Em seu livro “Para uma nova gramática do português”, Mário Perini aponta que a maior falha da nossa gramática tradicional está na “ausência de conscientização adequada do importe teórico das afirmações que constituem a gramática”. Em outras palavras, ele quer nos atentar para o fato de que a gramática normativa impõe uma determinada regra, mas não explica nem exemplifica as razões desta regra. Por exemplo, não explica por que o sujeito é o termo sobre o qual se faz uma declaração.

                     Vejam estas duas frases para que juntos façamos um exercício de análise sintática lógica:


                    1) Esse lanche eu não vou comer.

                    2) Em Fortaleza faz muito sol.


                   Se lhe pedir para me dizer qual o sujeito de cada uma das frases, provavelmente eu teria as seguintes respostas:


                   1) Sujeito: eu (justificativa: quem não vai comer esse lanche?).

                  2) Sujeito: inexistente ou oração sem sujeito (justificativa: verbo fazer em referência a fenômenos da natureza).

                 Estas são as esperadas respostas da maioria esmagadora de quem as analisa.

                Entretanto, estas respostas resultam num contraditório explícito da gramática normativa ao afirmar que sujeito é o termo sobre o qual se faz uma declaração. A contradição é registrada quando notamos que as referidas declarações não são feitas sobre o termo-sujeito “eu” mas sim sobre o termo “Esse lanche” que, diga-se de passagem, é objeto direto da frase. Na segunda frase, a declaração é feita a respeito de Fortaleza, o que, conforme a afirmação da gramática normativa, teríamos, por consequencia, “Fortaleza” funcionando como o sujeito.

               A gramática também não elucida por que sujeito é aquele que pratica a ação. E mais uma vez cai em contraditório como na frase na voz passiva “Vendem-se casas”, onde o “se” é uma partícula apassivadora. Esta gramática tradicional/normativa/prescritiva orienta que o verbo deve ir para o plural para concordar com seu sujeito “casas” o qual, por sua vez, evidencia-se quando a frase é transportada para a voz ativa “Casas são vendidas”. Esquece, no entanto, que quem pratica a ação não é “casas”, pois casas não se vendem, mas sim alguém, uma pessoa ou pessoas, um vendedor ou vendedores. Por conclusão, muitos gramáticos e linguistas e, principalmente, os falantes brasileiros de todas as classes sociais, entendem que o sujeito não poderia ser “casas”, porém um agente qualquer indeterminado. De outro lado, Celso Luft acreditava que a interpretação seria “casas” como sujeito por ser a "sintaxe mais conceituada junto a pessoas de prestígio social e cultural".

                     Mário Perini arrisca uma definição de sujeito:

                   “Sujeito é o termo com o qual o verbo concorda.”

                    Na inexistência de uma definição ou conceito mais adequado de sujeito, penso que a de Perini pode ser vista como a mais aproximada da realidade gramatical e semântica e que, seguramente, constaria numa das páginas da nova gramática reformulada.

                   O que quero deixar claro aqui é que a gramática de hoje estaria sendo muito mais social e culturalmente democrática e ética se nos mostrasse em suas páginas as duas variedades de construções, como duas formas diferentes de interpretações pelos falantes do idioma: a) “Casas” como sujeito da oração e b) “Casas” como sujeito indeterminado por força da construção frasal “Vende-se casas” em que não haveria pluralização do verbo vender. A gramática erra na medida em que deixa para trás o estudo do pragmatismo (o sentido de tudo está na utilidade - ou efeito prático - que qualquer ato, objeto ou proposição possa ser capaz de gerar) e da semântica (significação do ato ou objeto), dois eixos intrinsecamente ligados a ela e que, há milhões de anos, fazem parte do pensamento e da linguagem do ser humano.

                   São estas discrepâncias, dentre muitas outras, que nos deixam duvidosos quanto à veracidade de algumas afirmações da Gramática Tradicional.

                  Minha proposta, na qualidade de professor de língua portuguesa, educador e pesquisador e, especialmente, como falante do idioma brasileiro, consiste na reformulação da gramática que hoje consultamos. Uma reformulação baseada nos princípios linguísticos que levassem em consideração as necessidades reais dos falantes brasileiros, as idiossincrasias, particularidades de seus regionalismos e seus subdialetos, dos falares e subfalares do Norte ao Sul do país. Uma reformulação que deixasse registradas nas páginas dessa nova gramática as variáveis e variantes lingüísticas de certas comunidades, respeitando seus modos de dizer e escrever a mesma coisa em um mesmo contexto, com idêntico valor de verdade. Agindo assim, a nova gramática estaria desmoronando um cruel e antigo tabu: o preconceito lingüístico.

                   Mário Perini e tantos outros estudiosos do tema estão trabalhando neste propósito, por meio de suas palestras, publicações de artigos, resenhas, ensaios e livros. Seus trabalhos estão chegando às Faculdades de Letras do Brasil. Obstáculos existem para almejar tal missão, mas com o passar dos anos, a gramática terá mudanças, ou melhor, ganhará reformas com vistas a se adequar às diferentes sociedades brasileiras que falam e escrevem o idioma que lhes melhor convier.

                  Acredito que a gente vai (ou vamos) alcançar estes objetivos, porquanto somos cidadãos de direitos e deveres e formamos essa sociedade. Nessa linha, remonto ao sociolinguista americano William Labov (1960), expoente maior da Variação Lingüística, que sempre insistiu na relação entre língua e sociedade (sociedade que é feita de gente) para fundamentar seus estudos em torno da sociolingüística quantitativa.

                  Finalizo este artigo com uma máxima do porto-alegrense Luís Fernando Veríssimo, filho do escritor Érico Veríssimo:

                “A gramática precisa apanhar todos os dias pra saber quem é que manda.”


Bibliografia comentada:

Perini, Mário A. (2000). Para uma nova gramática do português.

Editora Ática, São Paulo/SP.

O livro apresenta uma proposta de renovação do ensino gramatical em nossas escolas, a partir de uma crítica das bases da gramática tradicional.


Tarallo, Fernando (1997). A pesquisa sócio-lingüística.

Editora Ática, São Paulo/SP.


O autor discute tópicos gerais da teoria da variação e da mudança lingüística e apresenta os passos metodológicos a serem trilhados pelo pesquisador atuante na teoria.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Iesus Nazarenus Rex Iudaeorum (INRI): os pingos nos “is”, os pingos nos jotas.

Lá estão elas, pequenininhas e fixadas no alto de um crucifixo, as quatro letrinhas sagradas: INRI. São iniciais da expressão latina Iesus Nazarenus Rex Iudaeroum. Tradução para o nosso português: Jesus Nazareno Reis dos Judeus.

A dita expressão costumava ser falada e escrita pelo povo latino, como os soldados romanos, cuja linguagem carregava o rótulo social de estigmatizada por ser coloquial, popular. Havia também a sua variante linguística culta, a de prestígio social, assim lida e grafada: ieshva nazareno rex ivdaeorvm.

Chamo atenção dos leitores a este fato histórico para exemplificar a origem do pingo na letra “j” (jota: do latim iota). Recentemente chegaram-me discussões em torno da obrigatoriedade deste pingo na letra “j” minúscula (javali) e/ou maiúscula (Jaguaribe) em redações exigidas nas provas escritas de concursos, vestibulares e em outras situações.

Diante de tal debate, quero apresentar-lhes as seguintes ponderações sobre a necessidade ou não-necessidade do uso deste pingo no “j”:

1ª) Na língua latina, usava-se o “I” como na palavra Iesus. Séculos e séculos após, os falantes da língua portuguesa, que é uma língua derivada do Latim, foram aos poucos articulando o “I” para o “j” com a consequente preservação do pingo no “I”, fenômeno linguístico denominado consonantização. A dúvida reside se nós falantes contemporâneous devemos usar o pingo também quando o “j” (jota) estiver em sua forma maiúscula. Ora, percebemos que no universo de jornais, revistas, livros, textos contendo linguagem culta ou mesmo popular, não se utilizam o pingo no jota maiúsculo, mas sim no minúsculo.

Grafamos então todos os jotas minúsculos, assim: javali, jabá, jeito, jantar, jura, jiló.
Mas grafamos os jotas maiúsculos assim, sem o pingo: João, Juju, Jaguari.

2ª) Entretanto, há um contraditório nessa manutenção do pingo no “j” durante a passagem do idioma latim para o português (Iesus para Jesus), qual seja o simples fato de hoje falarmos e escrevermos língua portuguesa do Brasil e não lingua latina. Não escrevemos discipulus, mas sim discípulo; não escrevemos Iesus, mas sim Jesus.

3ª) O emprego ou não-emprego do pingo no “j” minúsculo ou maiúsculo não vai alterar o significado da palavra que contenha esta letra. Digo mais: não vai comprometer a clareza do sentido da palavra ou da frase. Portanto, será indiferente o uso de uma ou outra forma, ou seja, com ou sem pingo não afetará a semântica da coisa. Ao contrário da omissão do sinalizador de cedilha do “ç” que afetaria a compreensão de um vocábulo como “taça” caso se tenha a intenção de usar um vocábulo que signifique copo (ex.: Quero uma taça de vinho) em confronte com a palavra taca (do verbo tacar) como em “O jogador taca a bola de futebol para fora do campo”.

4ª) Não se tem conhecimento da existência de gramática alguma, manual de redação ou outra publicação congênere que oriente a escrever obrigatoriamente o “j” (jota) minúsculo acompanhado do pingo. Apenas notamos que esta letra vem registrada, com pingo, no alfabeto da língua portuguesa.

Finalmente, concluímos que uma banca examinadora de concurso ou vestibular não deve exigir o uso obrigatório do pingo no jota minúsculo, pois não existe regra pré-existente sobre tal obrigatoriedade de uso. Por outro lado, deduzimos também que é de uso mais frequente e tradicional o pingo no j, de maneira que seria prudente ao candidato que faz a questão de prova optar pela forma do “j” minúsculo com pingo.

E se existe uso facultativo de determinada grafia e/ou pronúncia de palavra, verbete, optemos pelo uso daquilo que é mais frequente e tradicional, a exemplo de acrobata em vez de acróbata; safári no lugar de safari ou jibóia com pingo no “j”.

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Lendo, escrevendo e reescrevendo o mundo

Lendo, escrevendo e reescrevendo o mundo


Em seu livro A importância do ato de Ler, Paulo Freire sabiamente filosofou que “a leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura do mundo mas por uma certa forma de ‘escrevê-lo’ ou de ‘reescrevê-lo’ (...)”.

Inevitavelmente nascemos leitores. Dentro de casa, fora de casa, no ambiente de trabalho, no shopping, na praia, na terra ou no mar, estamos a toda a hora praticando leituras. A leitura na televisão, nos relatórios, correspondências oficiais, nas fachadas e anúncios de lojas e cinemas, nos cartazes das barraquinhas à beira mar. A leitura do mundo sob o olhar de Paulo Freire, este notável educador pernambucano que ensinou 300 adultos a ler e a escrever em 45 dias, faleceu em 1997, mas nos deixou um legado de livros de sua autoria em torno da área de educação. Obras que nunca se esgotam, ao contrário, adquirem vitalidade a cada dia que se passa.

Retomo à prática da leitura e a questão que emerge é esta: por que e para que ler? Ler é tão essencial em nossas vidas que nascemos lendo. Lemos as palavras que vivem a se esconder nos vários cantos do mundo. O sol que nasce e se põe, os rebentos das ondas do mar, o trânsito dos carros nas vias urbanas, a peregrinação relutante dos búfalos em terras africanas, as cigarras brincando de fazer orquestras que explodem em nossos ouvidos, o brilho das luzes e as canções do Natal. Uma final entre duas equipes de futebol em copa do mundo. Tudo isso compreende ato de leitura. Então, eis a resposta à pergunta inicial deste parágrafo: lemos porque nascemos lendo e sentimos necessidade de fazê-lo, lemos com a finalidade de satisfazer nossas ansiedades em descobrir o que ainda não foi descoberto e para recriar e rever o que já existe. Lemos porque ler faz bem.

Um hora e outra, ouvimos alguém advertir que as crianças leem pouco. Esta declaração encerra uma meia-verdade. O que acontece é que elas leem muito mais aquilo que está registrado fora do papel, das páginas de um livro, revista ou jornal. Fazem leitura diariamente na televisão, por exemplo, quando assistem a desenhos animados, filmes, programas de auditório. Seria de elevada importância se estes pequenos telespectadores escrevessem as imagens televisivas no caderno, cada uma delas redigindo a seu jeitinho peculiar sem a interveniência do adulto e, depois, comparassem seus textos com os textos de outras crianças.

É preciso estimular nossos filhos, sobrinhos, netos, a ler e a escrever. Esta é missão precípua de nós, pais, mães, tios, avós. Ensiná-los a extrair as palavras do mundo. Aconselho que passeiem com a criança até um cenário perto ou longe de sua casa, pode ser um parquinho, um clube, a rodoviária, o jardim botânico, o parque da cidade, o zoológico. Cenário inspirador é que não falta. Deixe ela observar, se deliciar com a paisagem natural, as árvores, as flores, as plantas, os bichos, deixe ela ouvir, ver e sentir. O murmurar das pessoas, o canto dos passarinhos, o contato com a areia, com a toda a natureza.

Faça com que a criança se sinta à vontade e peça a ela para sentar num banco da praça ou debaixo de uma árvore. Então brinque com ela de escrever num papel, em detalhes, as coisas que vocês dois estão vendo e ouvindo naquele instante. Após este exercício de escrevinhar no papel as coisas da natureza, peça à criança para ler para você a historinha dela. Depois será a sua vez de ler o seu texto. Acredite, você estará educando a criança de uma forma magnífica que lhes darão bons frutos a curto prazo. Mais: você e ela estarão lendo o mundo e registrando as palavras-mundo no papel.

Este constitui um trabalho eminentemente educativo e pedagógico, por meio do qual a criança é estimulada a escrever de forma espontânea, natural, isto é, sem aquela imposição da escola tradicionalista que teima em obrigar o aluno a escrever e ler uma redação, o que resulta, na maioria das vezes, numa tarefa mecanizada, robotizada, sem aproveitamento algum da criatividade e conhecimento da criança. Com este trabalho de pôr tudo no papel as coisas vistas, ouvidas e sentidas, não demorará muito para que criança adquira o hábito de ir até a biblioteca ou livraria à procura de algum livro.

Quando pequeno, por volta de meus 8 anos de idade, lia a leitura do mundo. O mundo onde vivi minha infância, expresso em cores vivas nos mares de Mucuripe da cidade cearense de Fortaleza, nas jangadas abarrotadas de peixes, seus jangadeiros, os vendedores de tapioca, de picolé de castanha-de-caju. As nossas brincadeiras de menino, puxar carrinho de rolimã, soltar pipa, fazer barquinhos de papel. As músicas regionais, forró, o baião, as cantorias dos repentistas. A leitura da natureza foi o que mais me contagiou e me inspirou a escrever minhas histórias, algumas até inventadas com personagens fantasiosos.

E a escola, onde fica nesta história? A escola assume um papel fundamental no processo de aquisição do hábito de leitura infantil. Seus professores devem conclamar os pais e responsáveis dos alunos para participarem de reuniões pelo menos uma vez por mês visando a discutirem sugestões, projetos em torno de como estimular a criança a ler e escrever, em frequentar mais vezes a biblioteca (não por imposição do professor, mas por imposição espontânea do próprio aluno que escolherá o livro de sua preferência). Traz-nos despreocupação saber que algumas escolas aos poucos vêm adotando este procedimento juntamente com os pais das crianças.

Se quisermos, cada um de nós pode reunir histórias vivenciadas até agora em nossas vidas, desde a infância aos dias atuais, e registrá-las em forma de páginas como num livro. Seria bem recomendável que crianças, adolescentes, jovens, idosos utilizassem um caderno-diário e nele registrem os fatos ocorridos em seu dia-a-dia. Agindo assim, estaríamos praticando uma tarefa salutar que extrapola o exercício de memorização, na medida em que estaríamos, sem se dar por conta, realizando a leitura do mundo no passado e recriando-a para o mundo presente.

Numa visão freireana, o que a criança prescinde de fato é não apenas receber recomendações para ler este ou aquele livro, mas ser estimulada, desde a sua tenra idade, a ler, escrever e reescrever o mundo no qual ela e todos nós convivemos.

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Bibliografia


FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler (em três artigos que se completam).
Prefácio de Antonio Joaquim Severino. São Paulo: Cortez/ Autores Associados.
(26. ed., 1991). 96 p. (Coleção polêmica do nosso tempo).

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Natal no sertão


A chuva descansa nas telhas da casa caída...
- Trais os minino prá dentro, cumadi Enedina!
A turva palavra da Joana, neta da Iêda parida,
É uma voz que vacila, mas que ainda domina.

Rumejam os trovões. É hora da quente bebida.
- Quêde o café? Bota água no fogo, Minina!
E o preto pó a essa gente singela fornece vida.
E do gordo bolo de fubá resta apenas a fatia fina.

A chuva cansa de cair nas telhas da casa caída...
- Eita, fio, vai cumprá dois frango lá na casa da Carmina.
E o rosto da criança sorri e nele floresce uma alegria incontida.

Junta-se à alma do sertão a peregrina alma natalina
Que está a murmurar nos corações dos vários povos detida,
A trazer chuva, café e bolo a essa gente da cumadi Enedina

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A linguagem na internet (salas de bate-papo)

O artigo de Bruno Rodrigues “666, o número da internet” traz novas interrogações aos leitores a respeito da linguagem usada nas salas de bate-papo da Internet. Primeiramente é preciso deixar bem claro que esse tipo de linguagem não fere, não maltrata, não macula, muito menos destruirá a língua falada e escrita fora da internet. Quem transforma a língua é a sociedade (falantes) e não uma gramática, um dicionário, uma lei, um decreto. A gramática, o dicionário, estão ali parados, como poças d’água, e eis que, como correnteza de rio, lá vem a língua sempre dinâmica e inovadora para passar pelas poças d’água. A língua é viva, no sentido restrito da palavra, pois ela só existe com a existência do homem. E guardemos isto: o homem, sentindo a necessidade natural de se comunicar de uma determinada forma na escrita ou na fala, ainda que seja numa forma inédita, estranha portanto, ele o fará doa a quem doer. Doa à gramática, doa aos dicionários, doa aos professores. Se as pessoas de hoje escrevem, num certo ambiente lingüístico, “kd vc” em vez de “cadê você” é porque elas estão dentro de um contexto social e cultural que lhes permite escrever desse modo. Se um dia escreveremos “kd você? Responder “sim” a essa questão é tão incerto como responder “não”. Mas não esqueçamos que um dia, anos e anos atrás, escrevíamos “Vossa Mercê” e que, com o passar dos anos, combinamos essa expressão para o “Você” (Vo de Vossa e ce de Mercê). Então, lhes pergunto: essa transformação do vossa mercê para o você trouxe prejuízo para a nossa língua? Creio que não.

Então tudo é permitido na língua? Tudo é permitido desde que, primeiro, se considere o ambiente, o local em que se realiza a comunicação e, segundo, que os seus interlocutores (quem escreve, quem lê) consigam entender a mensagem). Um falante que fala ou escreve empregando gírias em sua carta para alguém com quem tenha afinidade, como sua namorada:

Ex.: E aí mina, vamos pegar um som hoje?

Primeira condição: ele tem que ter relação de afinidade com ela (no caso, são namorados).
Segunda condição: ela tem que entender o significado das palavras “mina” e som” dentro da frase-convite. Caso ela não compreenda as duas palavras, haverá prejuízo na comunicação entre o casal.

Numa ida minha a Salvador, Bahia, estava eu passeando numa praça perto do hotel em que me hospedava. Entrei numa banca de revistas e perguntei ao jornaleiro “E aí, tudo em cima? Ele me olhou arqueando as sobrancelhas, ergueu a cabeça pra cima e me respondeu “como assim? Certamente o bom jornaleiro desconhecia o outro significado da expressão-gíria “em cima” empregada naquele contexto lingüístico “tudo em cima?” equivalente a “tudo bem?. Nesse caso, o uso da gíria comprometera a comunicação.

Feitas essas poucas considerações, podemos inferir, grosso modo, que as coisas devem ser ditas e escritas a determinadas pessoas no lugar e no tempo certo. Assim é o emprego da linguagem na Internet, fenômeno que tende a se restringir à própria Internet. Entendo que a língua empregada pelos internautas não teria utilidade prática no campo real. É provável que a síncope ou abreviação de palavras (você > vc; tc > teclar) seja adotada no futuro, em virtude da evolução da própria língua e da constante busca da originalidade no processo de comunicação pela língua escrita.

Na condição de instituição viva, a língua escrita e a falada estão presente no cotidiano de cada um de nós. Pessoas menos preparadas ou saudosistas tendem a interpretar essa nova forma de comunicação nas “salas de bate-papos” como uma espécie de deterioração ou degeneração da língua. Penso que esse raciocínio é falho, pois a língua está em constante movimentação. Não se estagna como uma poça de água. Adquire novos elementos e põe outros em desuso. Esse é um processo natural que faz com que as línguas evoluam e acompanhem as transformações sociais, econômicas e culturais dos povos.
Vejo que a língua escrita e quase falada dos usuários da Internet é mais uma das variantes de uso de nossa língua. Não há dúvidas de que esse segmento poderia influir nas futuras transformações em que a língua portuguesa irá sofrer nos próximos anos. Porém isso não significa deterioração do idioma, mas sim evolução e adaptação aos tempos modernos.

Finalmente, ao retomar as interrogações de Bruno Rodrigues “A língua não retrata o que o povo fala? Ou o que a regra nos impõe?”, afirmo sem titubeios que a língua é o que o povo é.