sexta-feira, 1 de março de 2013

(Paródia ao poema “Meus oito anos” de Casimiro de Abreu)




Ai que saudade que tenho da aurora dos bons filmes,
da cinemateca querida, que os anos não fazem mais.
Que elenco, que glamour, que valores!
Naqueles cines de luxo, ia-se ver John Wayne,
Grace Kelly, Bete Davis e o Sinatra a cantar.

Como eram belos os dias
Da produção do cinema!
Respirava da alma, a essência,
a bela atriz, o bom ator:
Omar Sharif de olhar sereno
interpretando Doutor Jivago
e o Carlitos de Charles Chaplin, sorrindo,
ao triste “Garoto” oferecendo afago.

Naqueles tempos de glória,
Ia-se ver faroeste:
a trilogia de Leone nos acalenta a memória,
Kirk Douglas como Ulisses em Odisseia,
enraizando amor e ódio à sua fiel plateia.

Ah, naqueles tempos de glória...
O cinema explodia em produções geniais.
Hoje é dilema com efeitos especiais,
explodindo em luzes só, sem poesia, sem história.

Ai, que saudade que tenho da aurora dos bons filmes,
onde se adormecia cantando
e se despertava a cantar.

Lá vem o carnaval



Lá vem o carnaval, com cheiro e sabor de arte
Lá já vem a baiana rodando, rodando a saia
Que a passarela é dela, do mestre-sala
Da mulher bela que porta o estandarte
Do homem compositor do bom verso
De passista que faz do chão seu universo.

Lá vem o carnaval!
A velha guarda, branca e azul
Diz que o rio que passou na vida de Paulinho
Vai fazer rio de lágrima de Norte a Sul
A velha que guarda rosa e verde em seu lar
Diz que tem menina na alma e quer sambar

Lá vem o carnaval...
Que Dodô e Osmar quer trioeletrizar seu povo
Que, de Olinda, o boneco quer pulsar de novo
O seu frenético frevo nos quadris dos foliões

Lá vem o carnaval...
Que essa gente que pulula, que apita, que grita,
Que veste máscaras e a utopia imita
É gente que bebe poesia e nem se dá conta.
Faz como o Pessoa e, de seus heterônimos,
De fantasias, finge tão completamente
Que chega a fingir que é alegria
A alegria que deveras sente.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Ler clássicos é preciso

Quando a primeira vez minhas mãos dedilharam as páginas de Memórias póstumas de Brás Cubas, escrita por Machado de Assis, meu pensamento ficou demasiadamente confuso, perturbado. A imortal passagem de um capítulo em que o “X” se diz ser acrobata e lança o desafio ao mortal leitor: “decifra-me ou devoro-te!”. E não tardou ser eu devorado pelo enigma machadiano. A partir da leitura, concluí que as obras de Machado são inesgotáveis, de sorte que se intitulam clássicas no cenário mundial.  E obras clássicas devem ser indicadas pelas escolas para as nossas crianças, adolescentes, jovens, desde logo cedo, que é para semear semente boa e fértil.

O professor deve ter a consciência de que seus alunos, sejam crianças ou adolescentes, necessitam exercer o hábito da leitura. Para tanto, é dever do educador convocar os pais, as mães, os responsáveis pela criança e, com o auxílio também da biblioteca, estimular nos pequeninos o gosto pelo livro. Gostar do livro, o primeiro passo. Depois a leitura. Apalpar o livro. Cheirar o livro, as páginas. Falar com o livro. Que o pai ou a mãe ou o tio ou o avô ou quem mais for familiar conte uma história para a criança, de preferência com um livro na mão. Que faça a criança ouvir o enigmático barulho do folhear das páginas do livro. E encha o peito para, no final da história, lhe segredar: “olha, meu filho, o livro é o melhor amigo do homem!”.

Preocupa-me bastante o fato de, nos dias atuais, as crianças gastarem seu longo tempo de manhãs, tardes e noites à frente do computador em brincadeiras de jogos infantis, nos seus MSNs, ou outras salas de bate-papo e mais coisinhas do ramo. Não que estas ferramentas lhes sejam prejudiciais em sua plenitude. MSN, Orkut nada mais são do que modalidades de canais de comunicação, e os joguinhos on line podem ser até mesmo educativos, como o “letroca” que consiste em formar palavras a partir de troca de letras, o que enriquece o vocabulário do participante do jogo. Intriga-me, porém, a constatação de que as crianças estão lendo pouco, muito pouco. E ler pouco pode trazer consequências ruins para elas. Quase não vimos livros nas mãos dos pequenos. Em vez disso, suas mãos ficam robotizadas em teclados, mouses, seus olhos muito raramente passeiam pelas páginas de um “Alice no país das maravillhas”, um “Pequeno príncipe” ou de um “Para gostar de ler”.

Missão dura dos pais instaurarem o equilíbrio entre computador e livro para seus filhos. Mas temos pelo menos duas notícias boas no meio deste fecundo terreno. A primeira delas é que a editora intitulada Escala Educacional adaptou clássicos da literatura brasileira para versões em histórias em quadrinhos. São obras de Machado de Assis (O enfermeiro; Uns abraços, A cartomante; A causa secreta) e de Lima Barreto (O homem que sabia javanês; Um músico extraordinário; A nova Califórnia; Miss Edith e seu tio). A segunda notícia – e esta é a mais extasiante - é que você pode acessar, gratuitamente, obras completas de Machado de Assis, poemas de Fernando Pessoa e outras tantas de literatura infantil mediante o site http://www.dominiopublico.gov.br/ do portal do Ministério da Educação.

Visualizem seu pequeno (filho, sobrinho, neto ou enteado) lendo uma destas obras e – aqui entra a magnitude da coisa! – visualize-os utilizando um destes canais de comunicação da internet (MSN, Orkut ou qualquer outra sala de bate papo) para comentar com outras crianças fragmentos da obra lida, opinar sobre os personagens, o cenário, os valores humanos embutidos na narrativa. Bater papo sobre a vida do autor da obra. Isto é possível, caro leitor: a criança usar a internet para conhecimento e disseminação da literatura.

Finalizo esta coluna com um fragmento de Memórias póstumas de Brás Cubas:

Com efeito, um dia de manhã, estando a passear na chácara, pendurou-se-me uma ideia no trapézio que eu tinha no cérebro. Uma vez pendurada, entrou a bracejar, a pernear, a fazer as mais arrojadas cabriolas de volatim, que é possível crer. Eu deixei-me estar a contemplá-la. Súbito, deu um grande salto, estendeu os braços e as pernas, até tomar a forma de um X: decifra-me ou devoro-te.
Essa idéia era nada menos que a invenção de um medicamento sublime, um emplastro anti-hipocondríaco, destinado a aliviar a nossa melancólica humanidade (...)”.

Que semeemos, pois, a boa semente do hábito da leitura dos clássicos infanto-juvenis aos nossos pequenos. Ainda há tempo.

terça-feira, 31 de maio de 2011

Língua culta e popular.

“É mais fácil desintegrar um átomo do que um preconceito”.


Esta afirmativa de Albert Einstein nos conduz a refletir sobre outra forma de preconceito tão marcante, tão vivo e manifestável nos dias de hoje: o preconceito lingüístico. E faço questão de principiá-la nesta coluna para debater o episódio recente acerca do uso do livro ‘Por uma Vida Melhor’ da coleção Viver, aprender.

Antes de tudo, é preciso deixar claro que o livro pretende partir da linguagem popular, com suas exemplificações, para melhor ensinar a norma culta, a linguagem padrão, a gramática normativa propriamente dita.

Transcrevo fragmentos do texto do livro da autora Heloísa Ramos:

"É importante saber o seguinte: as duas variantes (norma culta e popular) são eficientes como meios de comunicação. A classe dominante utiliza a norma culta principalmente por ter maior acesso à escolaridade e por seu uso ser um sinal de prestígio. Nesse sentido, é comum que se atribua um preconceito social em relação à variante popular, usada pela maioria dos brasileiros.

“Os livro ilustrado mais interessante estão emprestado. Você pode estar se perguntando: 'Mas eu posso falar 'os livro?'.' Claro que pode. Mas fique atento porque, dependendo da situação, você corre o risco de ser vítima de preconceito linguístico. Muita gente diz o que se deve e o que não se deve falar e escrever, tomando as regras estabelecidas para a norma culta como padrão de correção de todas as formas linguísticas. O falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião.

"Na variedade popular, contudo, é comum a concordância funcionar de outra forma. Há ocorrências como: Nós pega o peixe. - nós (1ª pessoa, plural); pega (3ª pessoa, singular)

“Os menino pega o peixe. - menino (3ª pessoa, ideia de plural - por causa do "os"); pega (3ª pessoa, singular).

“Nos dois exemplos, apesar de o verbo estar no singular, quem ouve a frase sabe que há mais de uma pessoa envolvida na ação de pegar o peixe. Mais uma vez, é importante que o falante de português domine as duas variedades e escolha a que julgar adequada à sua situação de fala.

"É comum que se atribua um preconceito social em relação à variante popular, usada pela maioria dos brasileiros. Esse preconceito não é de razão linguística, mas social. Por isso, um falante deve dominar as diversas variantes porque cada uma tem seu lugar na comunicação cotidiana".

"A norma culta existe tanto na linguagem escrita como na linguagem oral, ou seja, quando escrevemos um bilhete a um amigo, podemos ser informais, porém, quando escrevemos um requerimento, por exemplo, devemos ser formais, utilizando a norma culta. Algo semelhante ocorre quando falamos: conversar com uma autoridade exige uma fala formal, enquanto é natural conversarmos com as pessoas de nossa família de maneira espontânea, informal.”

Percebe-se que a autora preocupa-se, primeiramente, em informar que as duas variantes, a culta e a popular, são eficientes como meios de comunicação. Isto é inegável. Vejam que, em momento algum, ela deprecia uma variante ou outra. Pelo contrário, alerta que “o falante, portanto, tem de ser capaz de usar a variante adequada da língua para cada ocasião”.

Não conheço a autora, senão agora pelo seu livro, mas quero opinar a favor de suas exemplificações, que têm fundamentos linguístico, científico, ético, pedagógico-didático, tudo em benefício da educação e, mais propriamente, do ensino da língua portuguesa nas escolas.

Alguns opinaram contra o livro que nada mais é do que uma ferramenta útil com a qual o professor bem preparado poderá trabalhar com seus alunos. Alunos que falam de diferentes formas, com seus dialetos e sotaques característicos. Estudantes nortistas, nordestinos, sulistas, os do Centro-Oeste e do Sudeste.

O professor, gramático e linguista Celso Pedro Luft (1921 - 1995) orienta que “quaisquer que sejam as deficiências ou distâncias da língua culta que o aluno apresentar chegando à escola, é com esse material que o professor deve começar seu trabalho”. Ou seja, o livro que fala e valoriza as duas variantes (a culta e popular), mas que atenta para o fato de que devemos ser cuidadosos em usar uma ou outra no momento adequado.

Um professor que queira explicar aos seus alunos a norma culta, que queira ensinar a ele as relações sintáticas, pontuação, sujeito, verbo e predicado, e outros tópicos da gramática, este professor deve necessariamente começar pela explanação das duas variantes. Deve, acima de tudo, desenvolver sua aula a partir do aluno, da potencialidade de sua linguagem, de sua criatividade, de sua língua internalizada (materna), pois a proposta atual é de um ensino centrado no aluno (alunocêntrico).

João Mattoso Câmara Júnior (1904 - 1970), respeitadíssimo estudioso da língua, nos tranquiliza: “A língua popular quase não reage contra o fator individual de mudança desde que essa mudança não prejudique propriamente a inteligibilidade”.

O errado e o certo. As sociedades dos cinco continentes todas têm um padrão de língua a ser seguido. Isto também é inegável. Nós brasileiros aprendemos desde cedo que existe uma linguagem padrão cheia de regras gramaticais pela qual todos devem se pautar.

A correção é a obediência a essa linguagem padrão. E o livro Por uma Vida Melhor quer mostrar a importância desta obediência à norma culta, mas ao mesmo tempo esclarecer que existe também a linguagem popular que naturalmente deve entrar em igualdade de estudo, debate, reflexão junto com à variedade de prestígio social.

Por conclusão, se refletirmos melhor, mais atentamente, veremos que não se trata de erros e sim de discordâncias do uso. Se o uso estabelecido é o padrão, o gramatical, serão discordantes construções como: nóis drumimos / nóis pega o livro / a bassoura para barrer o chão.

Mas isto não quer dizer que são construções erradas no meio social. São outras formas de uso popular, coloquial, formas não-cultas, e muitas vezes, digo de passagem, estigmatizadas pela sociedade.

E no vestibular? Entendo que nas avaliações do vestibular, concursos públicos, o candidato deva pautar, sim, pela norma culta, elaborar o texto atento às regras gramaticais. Imaginem uma redação de vestibular cujo tema é Copa do Mundo na qual o seu autor inicia assim:

O brasile vai sediá a copa de 2014 e eu acho que nóis póde ser campião purque o brasile é muito bom de bola e nóis temo muito craques e a turcida brasilera vai torcê pra caramba.

Reparem que é explícita a oralidade pura do falante-redator manifestada em forma escrita. Uma oralidade que foge completamente do uso exigido pela gramática normativa e que, por isso, será considerada “errada”, inadequada, pela banca examinadora da redação.

Herbert Spencer, filósofo inglês, afirmava ser a gramática a última coisa que se devia ensinar, porque é uma filosofia do idioma, e um menino não aprende a língua materna pela definição do adjetivo, substantivo, pronome, como não aprendemos a respirar estudando gravuras de pulmões”.

Luft adverte que “é próprio do pensamento tradicional ingênuo supor que a gramática da língua está nos livros, e que os falantes, em maior ou menor grau, estropiam a língua, provocando aquelas afirmações de que “todo mundo fala errado”, como se, primeiro, os gramáticos inventassem as regras, para depois os falantes obedecerem a elas e poderem falar”.

A escola deve trabalhar a gramática interior do aluno, respeitando-a, enriquecendo-a, e, principalmente demonstrando que ela é mais uma opção natural de se falar e escrever. Mas atenção: cada uma delas - a variante popular e a variante culta - tem seu lugar de uso. Não se admite, portanto, o uso da linguagem popular em redações oficiais (vestibular, concursos, monografias e outros textos nos quais se exige o padrão culto da língua), Por outro lado, evitamos o uso da língua culta em situações que não a exigem necessariamente (conversas informais, bate-papos com familiares).

Eu não poderia deixar de mencionar o professor da Universidade de Brasília Marcos Bagno. Ele afirma que “Nenhum linguista sério, brasileiro ou estrangeiro, jamais disse ou escreveu que os estudantes usuários de variedades lingüísticas mais distantes das normas urbanas de prestígio deveriam permanecer ali, fechados em sua comunidade, em sua cultura e em sua língua. O que esses profissionais vêm tentando fazer as pessoas entenderem é que defender uma coisa não significa automaticamente combater a outra. Cabe à escola ensinar aos alunos o que eles não sabem!”

Minha filha de 11 anos de idade cursa a 5ª série (6º ano) por meio de um livro antigo adotado por sua escola que aborda a variação linguística, e seu professor de língua portuguesa orienta ela e outros alunos sobre a importância de cada uma das variantes da língua: a culta e a popular. E nem por isso minha filha e outras crianças irão desaprender a gramática, ou desobedecer às regras gramaticais. Muito pelo contrário: irão aprofundar seu conhecimento sobre a língua portuguesa, irão desenvolver melhor seu senso crítico. Isto é pura educação voltada ao progresso da criança.

É a partir da gramática interna do aluno que se chegará a alguma gramática explícita, normativa. E livros como o da autora Heloísa Ramos contribuem seguramente para desintegrar pouco a pouco o preconceito linguístico, educando de maneira cidadã e responsável as nossas crianças.

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BIBLIOGRAFIA





CÃMARA JR., JOÃO MATTOSO. Manual de expressão oral e escrita.

Ed. Vozes Ltda, Petrópolis, 1981.



LUFT, CELSO PEDRO. Língua e liberdade - Por uma nova concepção da língua materna.

Ed. Ática, São Paulo, 1997.



FRANCHI, EGLÊ PONTES. A Redação na escola - E as crianças eram difíceis...

Ed. Martins Fontes, São Paulo, 1998.



quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

QUESTÃO DE GÊNERO

Questão de gênero


A pergunta que não se cansa de calar: “a presidente” ou “a presidenta”, qual destas duas formas devo usar? As duas formas estão gramaticalmente corretas. O substantivo comum de dois gêneros “presidente” vale tanto para masculino quanto para feminino, desde que venha acompanhado do artigo definido “o” ou “a”.

É necessário saber, entretanto, que a forma feminina mais comumente falada e escrita é “a presidente”, pois a maior parte da comunidade linguística brasileira percebera que a expressão “a presidenta” soa como hipercorreção, quer dizer, a busca do uso correto que se eleva “acima da correção”, tachar o termo correto como incorreto. Por analogia, teríamos, na tentativa de “corrigir” em vão uma determinada palavra, “a videnta” como forma optativa para feminino de “o vidente”. Mas também, pelo mesmo motivo de “a presidenta”, preferiu-se usar “a vidente” no lugar de “a videnta”. Do mesmo modo, preferimos pronunciar e grafar “a combatente”, e não “a combatenta”; “a servente”, e não “a serventa”; “a gerente”, e não “a gerenta”.

Nos substantivos compostos, flexionamos apenas o primeiro elemento. Assim, teremos “a diretora-presidente”, por exemplo. E a respeito de “o governante”, “a governante” de um país? Veja que, se optarmos pela construção “a governanta do país”, poder-se-á dar margem à eventual interpretação de se tratar da governanta que cuida de uma casa, aquela profissional contratada para educar crianças, e não a mulher que preside uma nação.

No mundo de hoje, tão marcado pela emancipação da mulher, com sua crescente inserção no mercado de trabalho, há uma preocupação natural - e justa - de a mulher preservar e disseminar tudo o que diz respeito a seu gênero feminino.

Uma coisa é o cargo em gênero masculino, outra coisa é o gênero da autoridade que assina. Por exemplo, o cargo de Ministro, Assessor, Professor, Diretor de uma dada instituição. Seus respectivos titulares, se mulheres, assinarão um documento obviamente como Ministra, Assessora, Professora, Diretora. Não se admitem, portanto, construções do tipo: “o assessor Maria”, mas sim “a assessora Maria”.

Observe as três frases seguintes.

O piloto pilota o helicóptero.


A criança lê o livro de Monteiro Lobato.


Meu ídolo está cantando no palco.

Estas três frases assim, soltinhas, pronunciadas e escritas sem nenhum referente anterior (anafórico) e posterior (catafórico), nos impossibilitam de afirmar se se trata de um piloto homem ou mulher, de uma criança menino ou menina ou se o ídolo refere-se a um cantor ou cantora.

Estes substantivos são chamados de sobrecomuns. São invariáveis, isto é, não variam em sua terminação nem no artigo que o precede. Sendo assim, não existem as formas “a piloto” ou “a pilota”, “o criança”, “a ídola”.

A seguir, alguns substantivos sobrecomuns seguidos de respectivas frases exemplificadoras. Por sua essência, estes substantivos admitem somente um ou outro artigo, a saber: “o” ou “a”

O cônjuge (não existe “a cônjuge”).

Ex.: Ele tinha que informar dados do seu cônjuge.


O indivíduo (não existe “a indivídua”).

Ex.: Aquela moça era um indivíduo suspeito.


O gênio (não existe “a gênia”).

Ex.: A aluna de minha sala é um gênio.

O membro (não existe “a membra”).

Ex.: Comuniquei-lhes que as assessoras são membros do comitê.

O sujeito (não existe “a sujeita”).

Ex.: Minha irmã é um sujeito divertido.


A sentinela (não existe “o sentinela”).

Ex.: Instruí aquelas sentinelas - homens de bons costumes - a ter maior atenção em suas atividades.


Assim deve funcionar a nossa língua, dinâmica e prática também na questão de gênero. Falar e escrever aquilo que a comunidade linguística achar gramaticalmente convencional e consagrado. Tudo, é claro, para dar maior clareza à mensagem que se pretende transmitir.
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Bibliografia:

DUBOIS, Jean et al. Dicionário de lingüística.

Ed. Cultrix, São Paulo/SP; 1973.

segunda-feira, 11 de outubro de 2010

Inocência de criança: do cinema à vida real

           O pequeno Samuel Lapp (Lukas Haas) aponta o dedo indicador para a fotografia de um homem, identificando-o como o criminoso procurado, e o policial John Book (Harrison Ford), que está ao lado do menino, fica atônito porque o homem da foto é um policial. Cena pertubadora do filme A testemunha (Witness) rodado em 1985. Vi esta película dentro do luxuoso Cine Atlântida aqui em Brasília, já desativado. Na época, tinha 15 anos de idade. Samuel, com seus oito anos de idade, chamou-me atenção e até meu coração bateu mais forte quando vi esse tenso episódio do filme, pois ali estava a criança-personagem-protagonista, a testemunha do assassino. Não se tratava comumente de um adulto.

           Um dedo indicador, de inocência. A criança do filme é a criança da vida real. Menino inocente que não tem o propósito de entregar policial algum, ainda que o tenha feito involuntariamente. Mas vimos inocência de criança. E achamo-la também na comédia-drama O garoto (The kid), estrelado por Charles Chaplin em 1921. O olhar do garoto, tão singelo, carregado de sofreguidões e de poucas alegrias, denuncia o mesmo olhar de inocência de Samuel Lapp. Se fazem peraltices, se fazem birras, caretas, choramingas, são coisas de criança, ora bolas! É que tudo isso que elas insistem em fazer, e as fazem com afinco, está, acima de tudo, envernizado de imaculada inocência.

            Quem ainda não teve o prazer de contemplar A vida é bela (La vita è bella), há tempo de fazê-lo. E, ao passar ou repassar seus olhos nas cenas deste drama italiano de 1997, contemple os comportamentos, reações, gestos, expressões da criança Giusoé, menino tão inocente e encantador como Samuel Lapp e o garoto de Chaplin. Criança que é, o pequeno Giusoé acredita inocentemente que a guerra na qual ele está inserido trata-se apenas de um jogo do qual participa com intenso entusiasmo ao lado do pai.

          Outro filme italiano, o premiado Cinema paradiso (Nuovo Cinema Paradiso), de 1988, tem criança contracenando com gente adulta. O esperto Salvatore, apelidado de Totó, criança franzina, peralta, e que tem paixão desenfreada pelo cinema. Menininho custoso dá conta, sô!, como se diz no linguajar mineiro, não se pode piscar o olho que o rapazote vai lá e apronta um mal-feito.

           Que falar das sete crianças vividas no belíssimo musical A noviça rebelde (The Sound of Music) de 1967? Dirão alguns que são meninas e meninos endiabrados, indisciplinados, e por que não maldosinhos. Esquecem, todavia, que são crianças reprimidas, cujo pai viúvo, também reprimido, carecem de amor e compreensão. Carecem ser ouvidas. Até que a governanta Maria, interpretada pela atriz Julie Andrews, dá um jeito em tudo isso, trazendo amor, afeto e compreensão para essas crianças que, a partir de então, manifestam seu verdadeiro lado. O lado da criança alegre, amiga, que necessita de mão e coração acolhedores.

            Antoine de Saint-Exupéry, autor do livro O pequeno príncipe, comenta que "todas as grandes personagens começaram por serem crianças, mas poucas se recordam disso”. Dos literários Brás Cuba, Madame Bovary, Dom Quixote, até os cinematográficos Mazaropi, James Bond, Carlitos, todos uma vez na vida foram crianças. Às vezes, é verdade, não se dão ou nem se deram conta disso. Pois a vida adulta não tem início mesmo com choro e riso de criança?

            A vida nasce pueril, berrando em maternidade, depois se consola em leite materno, vida-criança que brinca, pula amarelinha, faz girar pião com barbante, e que até aponta o dedo indicador, num gesto inocente, para um certo homem suspeito. O garoto adotado por Chaplin tem rosto de gente miúda, e é preciso olhar bem no fundo de seus olhos para entender que ali mora uma criança e não gente adulta.

            Hoje, somos adultos e devemos isso pelo fato de termos sido crianças. Em cada um de nós descansa alma infantil, ali quieitinha ou, às vezes, irriquieta, mas comandada por espírito e senso adulto. Devemos nos sentir mais leves, felizes, por convivermos dia a dia com os pequenos Samuéis, Giusoés, com as tantas crianças reprimidas que reencontraram o amor, e tantos outros garotos de olhos mirrados e inocentes.

           E, para encontrar e elevar nossa felicidade, basta termos a certeza de que somos todos adultos-crianças. Ainda bem.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Padronização de textos oficiais

          Dia desses entrei numa loja de alimentação de grande porte e observei que seus empregados usavam vestimentas idênticas, calça e camisas com as mesmas cores e detalhes, logomarca da empresa no canto superior esquerdo da camisa, e até boné também padronizado. Saí da loja, andei a minha casa, uns 300 metros, e avistei um daqueles empregados da loja usando uniforme. E uma outra pessoa do meu lado, de traços joviais, chamou em voz alta a pessoa uniformizada pelo nome da empresa, como se fosse seu apelido.

          Este episódio atiçou-me a refletir demoradamente sobre a importância da padronização. E padronizar não somente o uniforme de uma empresa, mas também, por exemplos, o de uma equipe de futebol, o uniforme utilizado por uma escola pública ou particular, o desenho dos prédios de um condomínio residencial. Padronizar o tamanho e tipo da fonte das letras das páginas de um romance, de um relatório, de uma monografia. De um ofício.

          Padronizar redações oficiais de uma empresa pública, em conformidade com as orientações do Manual da Presidência da República. Este é o desafio lançado aos administradores contemporâneos, porquanto não se padronizam ofícios, memorandos, cartas, como se padronizam uniformes. O processo de padronização das redações oficiais alcança maior complexidade, por envolver muito mais pessoas, e pessoas com opiniões divergentes. Entretanto, entendo ser essencial uniformizar os nossos textos oficiais, sob o argumento de que a instituição pública, ou mesmo privada, tem de ter características próprias, como o seu logotipo, sua sigla, que poderão ser lidas e decodificadas por um público-leitor que, ao enxergar o texto padronizado, o identificará como sendo daquela determinada entidade. Mais: a padronização dos textos oficiais garante maior clareza, coesão e coerência em seus enunciados. Clareza e coerência no momento em que o Manual nos orienta para descrever o tópico “Assunto:” logo após as informações do destinatário nos padrões-ofícios, quais sejam o ofício propriamente dito, o memorando e o aviso.

           O Manual da Presidência da República nasceu com essa ideia, a de oferecer subsídios para padronizar os expedientes. Trata-se de um documento que não impõe, não normatiza, mas, ao contrário, traz orientações úteis com as quais podemos elaborar nossas redações oficiais voltadas ao padrão culto da língua. Aqui, cabe-me transcrever um fragmento desta publicação (grifos e negritos meus):

           Redação Oficial:


           Em uma frase, pode-se dizer que redação oficial é a maneira pela qual o Poder Público redige atos normativos e comunicações. Interessa-nos tratá-la do ponto de vista do Poder Executivo.

           A redação oficial deve caracterizar-se pela impessoalidade, uso do padrão culto de linguagem, clareza, concisão, formalidade e uniformidade. Fundamentalmente esses atributos decorrem da Constituição, que dispõe, no artigo 37: "A administração pública direta, indireta ou fundacional, de qualquer dos Poderes da União, dos Estados, do Distrito Federal e dos Municípios obedecerá aos princípios de legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (...)". Sendo a publicidade e a impessoalidade princípios fundamentais de toda administração pública, claro está que devem igualmente nortear a elaboração dos atos e comunicações oficiais.

          Sei que haverá sempre resistências de parte de leitores e redatores quanto a seguirem à risca a padronização dos textos, o que vejo como reação natural. É preciso conscientizar-se, no entanto, de que a imposição, a todo custo, do estilo de escrever de um autor sobre o estilo de escrever de forma impessoal, clara, concisa, formal e uniforme, poderá, numa eventualidade, obscurecer a clareza de um dado texto.

          Uma hora e outra, meus amigos de dentro e fora do trabalho, meus familiares, me questionam a respeito do assunto. Minha sugestão, na condição de professor de língua portuguesa, é que busquem informações do Manual da Presidência da República e, na medida do possível, sigam as orientações deste documento que, importa dizer, embora necessite, a meu ver, de uma urgente atualização e consequente reedição, surge muito mais para somar do que atravancar o processo de produção de textos oficiais.

          Um forte abraço e obrigado por sua atenção.

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Referência:



MENDES, Gilmar Ferreira at al.Manual de redação da Presidência da República.

2. ed. rev. e atual. – Brasília: Presidência da República: 2002. 140 p.

Disponível também em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/manual/manual.htm